Por: Marcos Marco Aurélio de Souza.

Onde: O Pulso – decálogo sobre a poesia.

1. Certos livros já nos fisgam pela capa, o que não quer dizer que o jogo da leitura esteja terminado. Nestes casos, porém, entramos em campo com o placar favorável ao autor – cabe a ele, portanto, não dar bobeira nem marcar muito gol contra. O Cartógrafo de Dunas, de Arzírio Cardoso, é uma destas obras.

2. Livro conceitual, sua construção se baseia na polissemia do deserto – imagem, metáfora, pensamento. Cartógrafo-poeta, Arzírio leva a missão de mapear estes desertos à exaustão, com algo próximo a duzentos poemas.

3. Publicado pela Penalux, seu projeto gráfico não perde em nada para o feito nas grandes editoras. Dentro do conceito evocado, a edição lança mão de recursos inusitados, como a paginação que segue regularmente até o meio do livro, com o poema em prosa ‘O eterno retorno’, e depois decresce até chegar outra vez ao número um, no final do livro, remetendo o leitor à ideia de uma ampulheta.

4. Seja pelas chaves de leitura fornecidas nas epígrafes, seja pelo volume impressionante de poemas, sempre nutrindo relações com a fonte metafórica da obra, o livro pode ser lido como uma espécie de tempestade de areia – certos poemas nos atordoam, outros nos escapam pelos dedos ou ardem aos olhos. E como cartografar o deserto sem assumir o risco de se perder?

5. Neste aspecto, contudo, também vai o que considero uma falha de edição: talvez pela própria quantidade de textos, optou-se pela eliminação do respiro entre os poemas; eles se sucedem ininterruptamente, sem descanso. Podem pintar dois, três, às vezes quatro poemas por página.

6. Embora a disposição possa ser compreendida dentro do próprio conceito da obra, funciona mal. Certos poemas, por dividirem espaço com outros de menor intensidade, perdem um pouco de seu peso ou brilho. Nada, porém, determinante para a apreciação do conjunto.

7. Assim, enxugar um pouco dessa areia – quem sabe reduzir o número de poemas, filtrando-os com um crivo mais rigoroso – e abrir espaços de descanso em meio à caravana são recursos que contribuiriam positivamente para a experiência dos viajantes.

8. De resto, o que temos é um trabalho de muita competência com a linguagem. Dotados de musicalidade e ritmos bem acentuados, os poemas do livro revelam um uso consciente de técnicas que buscam fundir som e sentido, forma e conteúdo, construindo complexidades a partir desse entrelaçamento.

9. E se alguns dos seus voos mais altos ocorrem nos poemas mais longos (vide o poema aqui publicado no primeiro comentário), vale frisar que o autor também é feliz nas formas breves. Flertando com o haikai, consegue fugir do previsível – uma qualidade notável nestes tempos em que a brevidade se tornou um subterfúgio para a inconsistência poética.

10. Embora seja – no sentido borgeano da expressão – um livro de areia, a obra de Arzírio Cardoso apresenta a solidez estrutural de um edifício levantado pelas palavras certeiras, empregadas com a precisão de um beduíno que, risco-relâmpago, decepa uma serpente que brota entre as dunas.

Sobre o autor:

Arzírio Cardoso é um poeta, escritor e professor paranaense. Graduado em Letras Português-Espanhol, dedica-se à poesia desde 2003. Possui poemas publicados na Agenda da Tribo, na Mallarmargens – revista de poesia e arte contemporânea, na Germina – Revista de Literatura e Arte, além de seu livro de estreia, Bromas & Bromélias, lançado em 2015 pela Editora Penalux. Em seus versos, percebe-se a consciente tentativa de comprimir e sinteti zar a linguagem, numa luta pelo adensamento de significados a parti r da sua compressão formal, deixando transparecer em seu esti lo a primazia da concisão, precisão e recorte, mesmo em poemas longos. Notas aliterantes, assonantes e paronomásti cas são empregadas assiduamente como técnica de harmonização sonora e como um meio de vincular o som ao senti do. Jogos de palavras, explorações polissêmicas e ludicidade também são característi cas marcantes de seu esti lo a um tempo esmerado, jocoso e refl exivo. Dono de uma escrita lúcida, fl uida e repleta de informação estéti ca, seus poemas parecem querer jogar com o leitor e a este distribui piscadelas cujo signifi cado pode ser tanto um convite à apreciação e exploração das potencialidades da linguagem como um “Arrá, por essa você não esperava, hein!”.

GÊNERO: Poesia (Selo Candeeiro)
ISBN: 978-85-5833-133-3 | ANO: 2017
FORMATO: 14X21
PÁGINAS:  126 | Pólen Bold 90gr

Vendas: https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/cartografo-de-dunas

www.editorapenalux.com.br

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