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Cultura e Entretenimento

O poder crítico da literatura em Conversa comigo, de Ricardo Ramos Filho

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Por Alexandra Vieira de Almeida

No livro de crônicas Conversa comigo (Penalux, 2019), de Ricardo Ramos Filho, temos um escritor que busca por problematizações, observando o real com olhos críticos. Trazer o terreno do cotidiano e trivial para a análise linguística da crônica a partir da densidade dos problemas da vida, eis a grande chave mestra do viés literário deste autor admirável que apresenta um livro maduro e repleto de questões político-sociais e artísticas. No E-Dicionário de termos literários, organizado por Carlos Ceia, temos o verbete crônica analisado por Annabela Rita, que propõe: “Inicialmente, a crónica, mais geral ou mais popular, registrava acontecimentos históricos ou por ordem cronológica. Fonte mais directa e imediata de conhecimento histórico, comportava também fatos menos relevantes, informação secundária que a História moderna tenderá a elidir”.

Dessa forma, temos um paradoxo em sua obra, que embasa o próprio teor da crônica mais substancial, ou seja, tornar fatos do dia a dia como algo de grande importância. Já tivemos o instigante livro do pensador italiano Nuccio Ordine com seu livro A utilidade do inútil. Criticando o teor mais pragmático e útil do que seria o poder do capital, o que tem uso comercial, Ordine fala de saberes, que seriam considerados inúteis para a estrutura dominante. Podemos pensar em nosso país, numa época em que temos o corte de verbas para universidades e colégios e o desinteresse pelo conhecimento crítico, levando-nos ao colapso do sistema educacional. Renato Ramos Filho faz de algo ordinário um movimento para a beleza das coisas mais significativas, revelando a relação entre o útil e o inútil. As ciências humanas, as artes, por exemplo, adquirem valor e podem ser sim úteis para a atitude crítica e reflexiva de toda a humanidade.

Mas pensar, proliferar os discursos, torná-los decifráveis para todos é o grande desafio deste escritor excepcional. Assim temos na epígrafe do seu livro o pensamento do filósofo Michel Foucault, afirmando o que temos dito anteriormente: “Mas, o que há enfim, de tão perigoso no fato das pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo?” Na crônica que abre o livro, “Conversa comigo”, temos o dom da narrativa, de contar histórias e segredos na vida cotidiana de cada um, pois a literatura é o melhor remédio para a solidão e o silêncio. O diálogo é aplaudido, é a busca da personagem desse texto. Dessa forma, encontramos, no interior do carro um casal, em que a mulher procura a palavra, a fala, a qualquer custo. O poder de comunicação é o norte para ela. Dessa forma, começa a crônica no meio do silêncio no carro do casal: “− Conversa comigo, diga alguma coisa”. A verbalização é necessária como um sopro de vida.

Há a exploração do verbo, da palavra, como parte indispensável do viver. O filósofo Nietzsche já dizia sobre o horror ao vácuo. A esposa não tolera o nada, o que está à beira do abismo das palavras, busca o outro na sua comunicabilidade e preenchimento do caos interior. Só que o assunto particular e regional, o futebol de São Paulo, que o marido discute, ganha ares de importância universal, dando um grande gancho para se discutir sobre o social e a situação no país do futebol que valoriza o capital assim como em qualquer parte do mundo, um prazer então utilitário para a maioria. Só que o final da crônica é surpreendente, pois há uma interrupção da narrativa futebolística para a despedida do casal em seu tom amoroso.

Na crônica “Macaco-prego”, temos o hibridismo entre o intelectual e o sentimental, pois a presença da música nacional é marcante, fazendo do narrador-personagem, que é alguém inteligente, gostar de músicas sentimentalóides e cafonas: “…embora batalhe para ter um paladar estético um pouco mais evoluído, sou capaz de gostar com alguma liberdade de coisas não tão recomendáveis e certamente de gosto duvidoso”. O intelecto e o sentimentalismo são a ponte entre o pensar e o sentir. Isso não seria um equilíbrio do ser para que a intelectualidade não engesse o coração? É uma questão apresentada por essa crônica maravilhosa que nos instiga a partir de nosso dia a dia, de nossa relação com a realidade. Outro fator importante na obra deste cronista é a reflexão lírica, reunindo o criticismo e a poesia. Vejamos: “E a quase ausência de automóveis nas avenidas transmite uma impressão de profundidade inusitada.”

Temos assim o casamento perfeito entre crítica social e a finura poética, a faca cortante que sangra e a delicadeza da flor perfumada. Nesta crônica, a partir do rádio que o narrador-personagem no carro escuta, temos a beleza de nossa terra, de nossa gente. O que é regional se torna grandioso e global, trazendo as questões e reflexões do cronista para o terreno da literatura. Encontramos essa grandiosidade do Nordeste através da escuta no rádio da nova faixa, Elba Ramalho: “O sotaque nordestino tem a capacidade de despertar memórias atávicas”. Vivenciamos também nos seus textos a mistura entre o urbano e a natureza, um canto à cidade refletida nas coisas naturais. Numa mesma crônica temos o peso filosófico do pensamento crítico e a leveza da poesia mais graciosa. No final do texto, um movimento de ilusão e desilusão, pois o narrador-personagem se confunde ao ver um macaco-prego, sendo que na verdade ele é algo diferente. Temos na tradição oriental esse mistério de maya, a ilusão, pois podemos confundir a cobra com a corda. É uma visão desfocada, o quanto a percepção nos engana, os sentidos nos absorvem numa areia movediça, pois segundo o filósofo Platão, os sentidos nos enganam.

Na verdade, a grande personagem no seu livro é São Paulo, onde temos uma crônica no livro com este título. Temos um retrato dela, como numa fotografia revelada pelo narrador-personagem. O local lhe traz dúvida e ambiguidade, num misto de amor e ódio, de prazer e rejeição. No belíssimo prefácio do escritor Edmar Monteiro, ele diz: “Ao longo das quarenta e quatro crônicas que compõem o livro, mesmo quando não é explicitamente mencionada, a cidade frequenta a conversa fluida de Ricardo Ramos Filho”. O narrador-personagem vai dialogando com a cidade, ao mesmo tempo em que dialoga com o leitor. Temos, aqui, a cidade que acolhe, que violenta e agride. E para isto há um motor para suas lembranças da infância, um tempo em que não era assim como hoje. Uma espécie de idílio ou paraíso é posto no passado, com suas recordações, comparando o presente e o passado. As crianças com a tecnologia perdem o gosto pela natureza e pelas brincadeiras saudáveis. A necessidade delas é essa mesma tecnologia, fazendo-as respirar os computadores. Ricardo Ramos Filho vai descascando as camadas da cidade como uma pele, um tecido a serem descobertos e desvendados pela pena firme do cronista.

Na crônica “Leilão”, temos o contato com os familiares de Ricardo Ramos Filho, neto do tão prestigiado autor Graciliano Ramos, um dos maiores nomes da literatura brasileira. A primeira edição autografada do livro Vidas Secas seria leiloada. Na dedicatória, o seguinte: “Para seu Américo, um abraço; Graciliano Ramos Rio – 1938”. Este autógrafo seria o leitimotiv para o escritor falar de suas férias no Rio de Janeiro com vários familiares: “Vovô Américo, sogro de Graciliano, pai de vovó Heloísa, mulher do escritor alagoano, e também de minha tia-avó Helena, era uma velhinho querido”. Ele era um grande contador de histórias, contava para Ricardo vários relatos. A questão da oralidade é enaltecida e, a partir daqui, temos o empuxo para que Ricardo Ramos Filho se tornasse escritor: “Os relatos ouvidos ali, tenho certeza me fizeram querer ser escritor mais tarde”. Nessa crônica, podemos vislumbrar a junção entre o verídico e o ficcional, pois no final do texto temos o poder de efabulação da crônica e sua força de imaginação, que veremos mais adiante. O neto de Graciliano Ramos resolve ir ao leilão, dando um lance inicial de 3.000,00, o que seria muito para ele. Aqui, nesse texto, revela-se o poder do capital e sua força aparentemente útil, sendo o livro vendido para além do valor inicial. Só que para Ricardo, esta relíquia do avô teria outro destino, mais útil para todos, uma doação para a humanidade: “Caso conseguisse aquele volume, ele teria o destino de todos os outros livros autografados da família, o IEB – Instituto de Estudos Brasileiros”. Seria algo importante para os estudantes e pesquisadores da obra. O seu poder de utilidade é formidável, diferente do discurso egoísta do valor monetário. Mas no final da crônica, somos levados pelo escritor por uma vingança literária. Aqui, temos o poder da imaginação do cronista, engendrando uma hipótese do que teria acontecido com o livro nas mãos do novo conquistador dele. No meio de algo verídico, a força de efabulação do texto. Assim perguntamos, há limites entre o real e o ficcional? Há intercâmbios, cruzamentos. Na verdade, a vingança literária do neto é o que está na dedicatória, que guarda a memória de quem ele conheceu na realidade: “A minha arma é o que a memória guarda”.

Portanto, Ricardo Ramos Filho, a partir de sua obra magistral, quer mostrar a singularidade de sua escrita, que se caracteriza pela polivalência. Apresentando as imagens opostas da utilidade e da inutilidade, mostra sua rede de relações, o que torna possível o poder crítico da sua literatura. Há uma mistura inusitada na sua escrita, revelando contradições e, ao mesmo tempo analogias, não apresentando a facilidade de uma escrita unilateral. Ao contrário, sua literatura é multifacetada, nos fazendo perceber os vários ângulos de uma questão. Para finalizar, podemos citar o livro A via de Chuang Tzu, uma releitura deste pensador oriental por Thomas Merton, onde encontramos um belo texto intitulado “A árvore inútil”. Essa árvore não pode ser cortada pelos problemas que ela apresenta, de modo de que não seja útil. No fim do texto, a resposta surpreendente de Chuang Tzu, dizendo que essa mesma árvore servirá de sombra para se descansar e que “nenhum machado ou decreto proclamará o seu fim”. Portanto, nunca será abatida: “Inutil? Que me importa!”

Conversa comigo”, crônicas. Autor: Ricardo Ramos Filho. Editora Penalux, 180 págs., R$ 40,00, 2019.

Disponível em:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/conversa-comigo

E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.

 

Contato: alealmeida76@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Acervo Penalux: Tocaia do Norte, premiado romance da escritora Sandra Godinho

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Hibridizando polaridades no romance Tocaia do Norte, de Sandra Godinho

 Por Alexandra Vieira de Almeida

O livro Tocaia do Norte (Penalux, 2020), de Sandra Godinho, foi vencedor do Prêmio Manaus de Literatura, como melhor romance do ano de 2020, na categoria Nacional. A obra é dividida em três partes: O Seminarista, O Relato e O Caminho, com um prólogo. Há uma nota da autora, onde ela explica quanto às fontes utilizadas para o seu processo de reconstrução literária com relação a um fato verídico, a expedição do padre Giovanni Calleri. Tocaia do Norte é ainda enriquecido por um belo prefácio de Marcelo Adifa, jornalista e escritor, onde ele disseca o jogo de interesses militares na época da ditadura, e as orelhas de Mário Baggio, poeta e escritor, que soube explorar o componente epifânico na obra de Godinho. A obra é extensa, com 318 páginas, dividida em 69 subcapítulos dispostos ao longo das três seções. A epígrafe utilizada por Sandra, de Altino Berthier Brasil, já nos revela a tristeza, o gemido e a melancolia dos índios, que apesar de serem fortes, mostram toda a fragilidade frente à desumanidade dos seres.

Logo no prólogo, somos levados por uma narrativa em primeira pessoa de voz masculina, iniciando as palavras com letras maiúsculas, para enfatizar a grandiosidade do relato. Temos a junção entre o poético e o mais ordinário. Há uma meticulosidade e delicadeza do silêncio da região com a corporeidade de modo mais popular, se valendo de expressões típicas daquela região específica da Amazônia, como “empachada”, que significa “cheia”. O narrador descreve um local, onde se apresenta a pobreza do lugar, com um “rio escuro”, em que a precariedade dá o tom maior. Há o embate no narrador, entre a via religiosa (os pais o queriam padre) e a vida mundana (seu desejo não era esse). Usando uma partícula de adversidade, o narrador contradiz o que a maioria, o senso comum pensa: “Era muito novo para ter arrependimento, mas tinha”. Há todo um retrato medonho do mundo animal com sua violência. Na natureza não há só harmonia e beleza, mas a crueldade, como no mundo humano, como veremos ao longo do enredo.

Godinho descreve com detalhes os animais regionais, inserindo-se na sua realidade circundante e dando verossimilhança à história.  No prólogo, o narrador não começa a história desde seu início, nos leva a um clímax, o que acontecerá no desfecho da obra, com a fuga do rapaz pela “picada”, seminarista de apenas dezessete anos, que deveria cumprir a promessa dos pais em ser santo, pois ele se salva da morte com o fervor religioso de seu pai e mãe. Godinho nos dá um retrato aterrorizante do perigo do narrador João de Deus na mata, que traz ao mesmo tempo a maciez do céu a acolhê-lo. A descrição da natureza pela escritora amazonense, nos faz lembrar de Guimarães Rosa, que nos mostrou uma natureza ambígua, onde o bem e o mal se equacionam. Depois, há um relato hiperbólico na comilança do padre italiano Chiarelli, com a fartura de comida, para adentrarmos nas hipóteses na mente do seminarista sobre as ações do padre. Quando a mente está em seu trabalho de deduções, há um ato inesperado. Há uma tensão na narrativa, fazendo o leitor pensar sobre o que seria aquilo, quem disparou aquele instrumento de guerra, logo no prólogo do livro. Ficamos sabendo de antemão que houve um ataque ligeiro, mas ainda não sabemos o motivo, dando um movimento de expectativa no leitor. Assim, o narrador não apresenta logo de cara o motor dos acontecimentos. Dá um tom ainda não definido, o que vamos descobrir depois no transcorrer da história. Encontramos uma imagem cru e seca da fuga, refletindo sobre seu próprio eu, pois considera-se inapto para as coisas do mundo. Há todo um conflito entre o pensamento e o corpo, dando dramaticidade à trama. O seminarista se caracteriza como frágil em contraponto ao padre Chiarelli, que revela virilidade e força. Temos um relato do abjeto, do sujo e do nojo, com o “mijo” e a “merda” do seminarista, onde se vê os opostos num mesmo ato. Portanto, o prólogo é um elemento crucial para se entender todo o enredo, pois não conta ou explica o resumo ou o início de tudo, mas o clímax dos acontecimentos, o que ocorre depois, retroagindo na primeira parte, o tempo, onde a memória serve como resgate dos momentos mais aterrorizantes na vida daqueles seres para que não caiam no esquecimento.

Em cada subcapítulo da primeira parte, Sandra Godinho coloca um poema antes de iniciar a narrativa, unindo os gêneros da prosa e da poesia. Essa introdução serve como criadora do clima que o leitor se enveredará por uma floresta de símbolos. Na parte I, Godinho faz o percurso da vida de João de Deus num Seminário. Lá, há todo um ritual rígido de regras de vivência e respeito. Utiliza recursos estilísticos na enumeração de regras que deveriam ser seguidas à risca, com a partícula “ou” nessa sequência de atos sistematizados. A caracterização do narrador para aquela vida na igreja se dá pela via negativa, mesclando o puro e o impuro, a santidade e profanação. Em meio à seriedade de suas reflexões, nos deparamos com o tom jocoso. Há frases entre parênteses, quebrando certos galhos textuais, e nos revelando o pensamento de João de Deus. O menino desde pequeno no seminário nos apresenta o jogo contraditório, entre o interdito (o que se considera sagrado) e a transgressão (o que subverte a ordem a partir das travessuras). A repetição da palavra “rotina” nos atos que ele pratica lá dá ênfase ao enfadonho. E no meio disso tudo, a veste é algo transformador. Há a descrição da batina e seu aspecto de pureza, cobrindo com o hábito a corrupção do corpo (espiritual). A linguagem de Sandra Godinho é realista, mas cheia de símbolos e metáforas que envolvem o leitor. Cita o nome do Seminário, São José, localizado temporal e espacialmente no centro da cidade de Manaus.

O narrador, já com 17 anos, vai para a casa dos pais, indo para a nova moradia deles em Raiz. Godinho faz aqui um jogo linguístico fascinante com o nome da nova rua dos pais de João de Deus: “raiz, tudo que não queria ter”. Assim, há o conflito entre liberdade e prisão, não só na vida monástica, como na casa de seus progenitores. E os governantes do local seguiam a cartilha dos militares, varrendo da região os locais flutuantes. Godinho coloca o ano de saída de João de Deus do Seminário para a sua casa, em 1968. Mas, estrategicamente, a escritora não coloca em forma de numeral. Por meio das palavras “Mil novecentos e sessenta e oito”, põe ênfase na datação fatídica se prolongando no tempo e na narrativa. No trânsito, na passagem no ônibus, o narrador faz uma verdadeira viagem na mente, revelando suas memórias. Mas, há uma parada, uma interrupção, pois o ônibus, com estrutura precária de madeira, não vai muito longe, tendo João de Deus, que seguir sua “via-crúcis”, o restante a pé. Nessa dificuldade inicial, que serve como preâmbulo para seus obstáculos em todo o enredo, temos a lama, a terra, o cascalho, o mato. E ele caminha, paradoxalmente, com uma bagagem pouca, leve, em meio à proliferação de imagens do lugar. Além disso, Godinho realiza comparações originais, entre o orgânico e inorgânico. Há também uma tensão entre diálogo e silêncio, perfazendo a mescla de elementos que são contraditórios. O narrador tem olhos de águia, narrando e descrevendo tudo com minúcias, prescrutando o interior e exterior das personagens. Assim, para além de um romance histórico, ressignificado, literariamente, pelo seu teor ficcional, encontramos um livro de alto teor psicológico, se adensando no viés existencial dos caracteres expostos pela lente lúcida de João de Deus no tempo presente, já amadurecido, 17 anos depois, já com 34 anos. E o narrador revela que a mãe não reconhecia por trás dos gestos, os atos e palavras implícitos, que o seminarista enxerga plenamente. Os leitores se inserem nas visões conflitantes da mãe e de João de Deus, com relação aos seus amigos de infância, que para ela, perderam a inocência. Mas que para ela, ganharam experiência. Um dos amigos, Vivaldo, ele reencontra já mais velho com o amor da juventude de João de Deus, Lívia, que o desconcerta, ao vê-la agora mais com seu amigo. Com seus vícios, vivendo num local precário, o narrador o considera um verdadeiro homem, diferente da sua imagem de purificação e santidade. A frieza de Vivaldo o decepciona.

Na ida à igreja do padre Charles (onde ele foi coroinha), temos o momento chave da história. É lá, que ele é apresentado ao padre Chiarelli. Ele trabalhou com os indígenas em missões importantes. E João de Deus logo se identifica com o jeito nada convencional do padre italiano. Já logo no primeiro contato, a impressão de espontaneidade de Chiarelli, utilizando um vocabulário em que temos expressões como “cáspira” e palavras pouco mais nobres, atrai o narrador, se identificando com ele. Ele vê vitalidade em Chiarelli, diferente do espaço frio e soturno de um Seminário. Temos expressões em italiano do padre em meio aos diálogos em português. Chiarelli o surpreende, com sua comilança e interesse por cervejas. Somos introduzidos na culinária típica do local, com riqueza de detalhes, exposta por Godinho. O padre é a metáfora mesmo do excesso, do exagero, em contraponto com a imagem da igreja rígida. Mas há algo que se afasta desse excesso corpóreo e sensorial, pois o padre tem um ideal, o que o seminarista João de Deus irá perseguir. Ou seja, o choque entre a carne e o espírito, pois o padre tinha íntima e intensa fé em Jesus. A igreja, assim como o campo político, seriam a figuração da hierarquia, o que o padre tenta ultrapassar. Chiarelli é transferido da Itália por seu comportamento impróprio e subversivo, vindo para o Brasil e começando sua missão de evangelizar os povos indígenas, iniciando por Roraima. Há todo um vislumbre na narração, com imagens belas e literárias em tom bíblico para falar sobre o padre Chiarelli. O padre italiano quer evangelizar os índios, mas sem aculturá-los. Existe todo um processo de aprendizagem entre o padre e o seminarista ao longo do romance, mesclando o sonho e o real, o ideal e a realidade crua e estúpida que se descortinará e apagará a chama da utopia. Um romance distópico, em certo sentido.

E no transcurso na narrativa, temos os interesses dos militares durante a época da ditadura, que juntamente com o engenheiro Altamiro, seria a construção de uma estrada, a BR-174, nas terras indígenas dos Waimiri-Atroiaris. O coronel Carimbó, principal opositor de Chiarelli, com quem ele tem rusgas e brigas ferrenhas, estava a frente da missão de construção dessa estrada. No meio disso tudo, há o choque da evangelização dos católicos com relação à missão dos americanos protestantes, que queriam afastar os índios para a construção da rodovia. Assim, há o embate também entre católicos e evangélicos. E o seminarista, com frases repetidas, enfatizando o medo e a confusão entre seguir ou não o padre, em tê-lo como mentor, revela uma carga de tensão psicológica formidável. Godinho aproveita a sonoridade das palavras, fazendo jogos estilísticos perfeitos, onde “rodou” (confusão em círculos na cabeça de João de Deus) e “rodovia” se interpõem. Chiarelli era um homem de extremos, entre o choro e o riso, mudando de humor constantemente no transcorrer da história. Com interesses em choque, Chiarelli parte em missão para afastar os indígenas da região, pacificamente, para a construção posterior da rodovia. E João de Deus dá um novo rumo a sua vida, seguindo o padre e os expedicionários nessa missão. O romance é híbrido, mesclando o sociopolítico ao existencial e psicológico, o interno e o externo, o real e ficcional, o histórico-documental e o literário. Um verdadeiro amálgama, onde os extremos e os conflitos se adensam numa simbiose perfeita. Com tudo isso, ainda temos o papel da Funai, naquela época, e os interesses da mídia nessa expedição, cheia de tensões e conflitos de posicionamentos. Os métodos de Chiarelli se chocam com os dos políticos e ele tem de seguir a cartilha e a hierarquia. Ele não queria que sua expedição parecesse uma invasão. E, assim, ele acaba tendo que avançar pelo Abonari, a seu contragosto. O padre obedece a ordem dos superiores. A zona seria de guerra e não neutra. O seminarista se vê, se olha por dentro, num processo de autorreflexão e autoconhecimento: “Era uma sombra, pequena e desconhecedora do mundo”. O bíblico, o literário e o social se conjugam num abraço múltiplo e diversificado.

E, ao longo do romance, Godinho vai introduzindo novas personagens, trazendo complexidade e variedade ao enredo. Temos, por exemplo, a Irmã Helena, que era a madre superiora do Jardim da Infância e internato Adalberto Valle, que nutre um amor pelo padre Chiarelli. Todo o local em que ela atuava é descrito com ordem e zelo pelo narrador. Há significados ocultos nos gestos, ações e palavras das personagens que o narrador não consegue captar naquele passado, onde ainda era uma planta tenra, mostrando que não era onisciente. Tanto que a narrativa é em primeira pessoa, seguindo sua versão pessoal dos fatos. Alguns deles, que só outras pessoas poderiam saber, ele explica na segunda parte que teve depoimentos de outras tribos e pessoas, para dar verossimilhança a sua história ficcionalizada, mas que aponta para uma experiência vivida, recolhida por si e pelos outros, na sua perspectiva amadurecida na sua época atual, que retroage no tempo, para o resgate de memórias que não podem ser dissolvidas, mas solidificadas pela escrita e pela construção de um romance. O aprendizado é progressivo, gradativo. Há coisas que ele sabe, percebe e não sabe. Há uma contradição em sua narrativa, entre o tom lírico e delicado com a crueldade atroz de certas cenas a provocarem o pavor no leitor. A narrativa dá a ideia de fluxo contínuo, como o rio que irão percorrer, zona neutra, mas que serve como metáfora para o prolongamento da história. Assim, a sua linguagem oscila entre o realismo cru com palavrões e expressões rascantes com a beleza do lirismo e metáforas.

Dando continuidade à narrativa, somos introduzidos na personagem Paulo Dias, um mateiro, que se opõe à visão de Chiarelli (que quer os direitos dos índios). Paulo os vê como selvagens e sem cultura, querendo explorá-los. Há diferentes temperamentos em jogo neste caldeirão imaginário e reflexivo. Pela primeira vez, João de Deus viajará num avião no subcapítulo 20, em que presentes serão lançados para os índios, como moeda de troca e pacificação, como se eles estivessem à venda. Mas o discurso de Paulo Dias é preconceituoso. E esse personagem conta para o narrador seu passado, relatando suas memórias. Dessa forma, vemos histórias paralelas dentro da história principal, fazendo o narrador oscilar entre a crença e a descrença, achando que poderiam ser fatos reais ou inventados, brincando com os espaços tênues entre o real e o imaginário. E no meio desse terreno inóspito, com escassez, os expedicionários vão desbravando. Há também, em oposição a isso, o mistério e o lirismo na área dos Abonari. Um verdadeiro cântico à natureza. No curso do romance, temos as duas vias de percepção sobre os indígenas, a via positiva, que acolhe, de Chiarelli, e a via negativa, do opressor, o mateiro Paulo Dias, que mostra a superioridade do homem civilizado. No final da primeira parte, temos a mistura de gêneros literários e estilos diversos, como uma mensagem e recado em tom informativo sobre as ações do local para serem transmitidas pela rádio para a sede, os jogos de adivinhação, a partir dos gestos dos indígenas, tentando compreender o outro, nas suas línguas variadas. Mas Sandra Godinho apresenta uma história sem maniqueísmos, revelando que o bem e o mal existem em ambos os lados, pois Paulo Dias percebe a vaidade de Chiarelli nessa missão, em ser reconhecido publicamente pela mídia.

Na segunda parte do romance, não há poemas iniciando cada subcapítulo, retornando a usar esse recurso na terceira parte, mesclando, assim, os tons e formas de como narrar. Na Parte II, “O Relato”, encontramos o processo de escrita no narrador João de Deus, a elucidação de seu lastro inventivo. E um dos motivos, “o ideal”, que o padre Chiarelli lhe dá, é central na trama. Tudo se deveu a sua maturidade, onde ele se enxerga pelo verso e pelo reverso de si, vasculhando todos os seus meandros e se desnudando para os leitores. É a busca por sua própria identidade, sua individualidade que ele se refere, criticamente: “Resolvi relatar tudo o que se passou no Abonari com a ajuda da Irmã Helena e do padre Sartori, que saiu atrás dos testemunhos de índios (que lançaram luz a esse túnel assombrado que só clareou muito tempo depois”.

E é nessa parte na narrativa, que deixo aos leitores descortinarem, que se revelam os interesses reais nas terras indígenas dos Waimiris-Atroiaris. E a hierarquia tem um papel importante na trama, mostrando como as sociedades se comportam. Há todo um processo de distinção e individuação das personagens, ressaltando cada um em seu comportamento próprio. Mas, além disso, temos os atos de fingir dos caracteres, unindo essência e aparência, o ser e a máscara. No capítulo 37 repete o mesmo texto do prólogo com uma ligeira diferença. Não coloca o último parágrafo. Isso demonstra uma circularidade, uma ideia de dèjá-vu do eterno retorno nietzschiano, que já podemos perceber em outros livros da autora. Além do recado, aqui, nessa seção, vemos o gênero epistolar a partir de uma carta de Chiarelli à Irmã Helena, assim como na Parte III, onde teremos outra carta comovente e bela. Têm-se aqui, também, a reprodução de uma fala de um repórter da Rádio, mesclando o literário e o informativo-jornalístico. Ao mesmo tempo, nessa parte, nos deparamos com cenas violentas e chocantes com sangue e tripas e outras de intensa delicadeza e poeticidade, revelando-nos uma linguagem de extremos. Há a busca da FAB pelas informações e versões e mentiras sobre os fatos. Há contradições nas notícias de jornais, aqui, introduzindo o leitor numa outra espécie de narrativa, a da investigação. Temos o Serviço Secreto do Exército da região, com interrogatórios. Dessa forma, temos uma via de mão dupla, o que os leitores sabem e o que as personagens não sabem, num jogo textual e inventivo brilhante. Finalizando essa parte, nos deparamos com os interesses dos militares, a “Aliança para o progresso”.

Na parte III, “O caminho”, encontramos a seção mais curta e experimental de Sandra Godinho. No subcapítulo 61, há um trecho da tradição indígena, escrita na língua nativa e sua versão em língua portuguesa, num plurilinguismo da escritora. Há nesse subcapítulo várias letras “X” em sequência de seis linhas e depois a palavra “Merda” três vezes com exclamações, colocando o visual, a imagem e o popular em ação. Uma escrita de vanguarda e experimentalismo. Depois segue em outra parte um parágrafo inteiro quase em pontuação num caminhar vertiginoso, utilizando a partícula “e”, substituindo a vírgula num alongamento do choque entre palavras. No final do texto, há uma sequência de palavras com vírgula, alternando o longo e o ligeiro, o alongamento e agilidade das palavras. E, no final, algo assustador e apavorante, de uma crueldade sem limites, o massacre desumano dos militares, que cometem uma “chacina”, revelando sua cartilha demoníaca, subvertendo uma suposta ordem e inteireza. Mas, unido a este tom de perversidade, ainda temos um lastro de esperança na figura de um sobrevivente, o narrador João de Deus, que terá um desfecho inusitado na trama.

Portanto, o novo romance de Sandra Godinho, aplaudido e premiado, é uma verdadeira peça literária, onde se conjugam os pares opostos, revelando grande conhecimento da língua, dos recursos estilísticos, dos estilos e gêneros literários, do contexto e história da sociedade e da realidade. Hibridizando polaridades, temos a sutileza do silêncio poético com a dureza e petrificação de cenas sangrentas e viscerais. Um livro que realmente está dando o que falar e que será um tesouro para futuras gerações.

Disponível em:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/tocaia-do-norte

E-mail: vendas@editorapenalux.com.br

A resenhista

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: “40 poemas” e “Painel”. “Oferta” é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro “Dormindo no Verbo”, pela Editora Penalux.

Contato: alealmeida76@gmail.com

 

 

 

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Acervo Penalux: Voz Mulher, novela da escritora Letícia Palmeira

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“Voz Mulher”: o feminino em tempos de pandemia

 No ano de 2020, em pleno surto de Covid-19, surge para o ser humano questões que vão além da saúde física e segurança. Em meio às situações cotidianas ‒ que se tornaram estranhas na quarentena ‒ ­manifesta-se a necessidade de se expressar, de se conhecer, de se fazer ouvido, em especial para as mulheres, que fazem parte de um dos grupos de pessoas mais silenciados no Brasil atualmente. Letícia Palmeira vem para sanar um pouco dessa dor e calar esse silêncio que repercute ao redor da existência feminina.

Em Voz Mulher, a autora celebra o feminino abrindo as portas do subconsciente e das questões relacionadas ao feminino em meio à pandemia de Covid-19. A autora realiza uma revisitação e ressignificação do passado, conduzindo o leitor, com sua escrita garbosa, a questões de igualdade entre os gêneros em relação ao sentir-se no contexto atual.

Sua obra é uma ficção com viés autobiográfico que apresenta, em sua intensa narrativa ensaística, reflexões sobre o hoje, as relações entre a vida e a morte e os caminhos tortuosos do feminino. Nas ruas quase desertas, se ouve a Voz Mulher se escorando nas construções, passando pelas frestas, escalando os edifícios e se infiltrando em suas rotinas, salas de jantar e quartos de estar, ecoando pelo mundo seu grito harmônico do sentir-se mulher.

Segue abaixo um trecho da obra:

Ouça a Voz Mulher que emana das ladeiras, edifícios, das janelas e das sacadas onde vasos floridos se equilibram sob o forte vento das cidades que aglomeram desejos, anseios e passos fortes nas calçadas que correm pela vida na força motriz do relógio de corda antigo pendurado sobre o porta-retrato feliz.

Sobre a autora:

Letícia Palmeira é graduada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Nasceu em São Paulo. Reside em João Pessoa. Autora de diversos livros nos gêneros romance, contos e crônicas. Publicou Artesã de Ilusórios (EDUFPB, 2009), Sinfônica Adulterada (Multifoco, 2011) e Diário Bordô e Outras Pequenas Vastidões (Multifoco, 2013). Seu primeiro romance, Sol e Névoa, veio a público em 2015. Publicou também A Obscena Necessidade do Verbo (Penalux, 2016), O Porta-Retrato (Penalux, 2017), é uma das organizadoras da coletânea Ventre Urbano (Penalux, 2016), que trouxe à tona a prosa de algumas autoras paraibanas, como também foi organizadora do livro coletivo Não Temos Wi-Fi (Penalux, 2017). Buscando ampliar sua experiência, Letícia publicou, em 2018, A Química entre Nós, romance disponível somente em e-book. Em 2019, a autora publicou Mostruário Persa, um livro bordado de lirismo em prosa poética. Voz Mulher é seu mais recente trabalho, escrito no atordoado ano de 2020.

Serviços:

     Voz Mulher, novela (90 p., 38 reais). Letícia Palmeira ‒ Editora Penalux.

Disponível em:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/voz-mulher

 

 

 

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Cultura e Entretenimento

O livro Legado de Aço-Legacy conta a história dos maiores cuteleiros do Brasil

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O livro Legado Aço-Legacy of Steel tem cerca de 750 páginas, pesa 6kg, e mede 35 x 25 cm. Em poucas palavras, tem dimensões titânicas.

Conta a história dos maiores cuteleiros do Brasil, assim como suas paixões e técnicas que gostam de utilizar na hora de completar suas exímias peças.

Contando com cerca de 350 cuteleiros de norte a sul do país e mais de 40 modelos diferentes de facas, é o maior manual de cutelaria já lançado na América Latina. O livro é bilíngue, português e inglês.

Além da própria página de cada cuteleiro, há a história por trás do nascimento da cutelaria em cada área do Brasil e de cada modelo de facas que possuímos hoje; desde a faca gaúcha até o facão de arrasto, mencionando figuras históricas e lendárias que utilizavam estes modelos e mostrando a evolução do passado ao presente nestes objetos tão cheios de história e cultura.

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